2015-12-02

Adaptação às Alterações Climáticas e Florestas

Equipa ClimAdapt.Local

“Agricultura, Floresta e Pescas” é um dos nove setores estratégicos definidos na Estratégia Nacional de Adaptação às Alterações Climáticas (ENAAC), com vista à identificação dos impactos que já se fazem sentir e à definição de prioridades destes setores na adaptação às alterações climáticas (AC).

As mais recentes projeções apontam para cenários climáticos de subida da temperatura, aumento da ocorrência de secas e ondas de calor e ainda alterações ao nível do regime de precipitação, fatores que poderão ter efeitos nefastos para a sustentabilidade dos espaços florestais e a sua capacidade de fornecer bens e serviços.

 

A distribuição territorial das espécies florestais

 

Não obstante a incerteza subjacente a esses mesmos cenários climáticos e aos respetivos impactos, a comunidade científica concorda que as AC poderão afetar negativamente a produtividade dos povoamentos florestais e, também, influenciar a distribuição territorial das espécies.

 

Em relação a esta questão, Joaquim Sande Silva*, docente e investigador da Escola Superior Agrária de Coimbra, refere que “é provável que num horizonte de 100 anos, o efeito direto das alterações climáticas não se reflicta de forma notória na distribuição das espécies, quer devido à grande longevidade das árvores quer à capacidade de adaptação das nossas principais espécies”.

No que respeita às áreas de distribuição potencial de espécies como o pinheiro bravo ou o eucalipto, as projeções apontam para uma diminuição, especialmente nas regiões mais a sul.


Já o sobreiro “poderá ver aumentada a sua área de expansão na região norte”, embora a sua área de distribuição possa ser afetada no sul e no interior, em consequência do acentuar da aridez e menor capacidade de retenção de água nos solos.

 

Analisando os impactes das AC ao nível das condições de crescimento das diferentes espécies agrícolas e florestais, Joaquim Sande Silva considera que as consequências serão mais visíveis e gravosas para as primeiras, devido ao facto de “terem uma menor variabilidade genética e, como tal, uma maior exigência ao nível das condições climáticas”.

 

Incêndios florestais: um aspeto prioritário

 

Mais do que os impactes diretos do clima sobre os povoamentos florestais, a probabilidade de enfrentarmos, no futuro, incêndios florestais mais severos e imprevisíveis será, a par dos agentes bióticos nocivos (como praga e doenças), a consequência mais imediata das AC sobre a floresta.

 

Na opinião de Joaquim Sande Silva, a ocorrência de incêndios florestais em maior número e intensidade será, provavelmente, “o efeito mais visível das alterações climáticas na floresta em Portugal”. Para o especialista, a confirmarem-se as projeções que apontam um aumento da temperatura, as regiões do interior serão as mais debilitadas e estarão mais sujeitas a um agravamento dos incêndios florestais. Já em regiões onde a quantidade de combustível é inferior, como o Alentejo, "o aumento da temperatura poderá não corresponder a um aumento da área queimada".

 

Adaptação deveria passar pela aposta nas espécies nativas

 

Na ENAAC foram identificados três objetivos primordiais a alcançar no que respeita à adaptação da floresta às AC:

  • Aumento da resiliência, reduzir os riscos e manter a capacidade de produzir bens e serviços;
  • Aposta numa maior informação e transferência de conhecimentos entre os agentes do setor;
  • Monitorização e avaliação dos impactos das AC.

 

Questionado sobre que abordagens possíveis para lidar com os vários eventos climáticos, Joaquim Sande Silva volta a pôr a tónica na questão dos incêndios florestais, referindo que o aumento da capacidade de fiscalização é essencial para abordar este problema de forma séria e efetiva. "É fundamental conseguir responsabilizar os proprietários pela gestão que fazem ou pela falta dela. Para tal há que avançar sem hesitações para o registo cadastral de todo o património fundiário".

 

Por outro lado, é também necessário inverter a atual "degradação dos nossos ecossistemas naturais", passando isso por uma aposta nas folhosas nativas, que apresentam normalmente condições menos favoráveis à propagação dos incêndios florestais. Para o especialista, a capacidade de adaptação da floresta portuguesa às AC pressupõe a resolução de outros problemas de fundo, de que é exemplo “a enorme área de eucalipto que foi plantada em áreas completamente inadequadas do ponto de vista produtivo”.


 

*Nota sobre o especialista

Joaquim Sande Silva é Professor na Escola Superior Agrária de Coimbra (ESAC – IPC) desde 1991, onde leciona várias disciplinas relacionadas com sistemas agro-florestais e incêndios florestais. Enquanto investigador, tem desenvolvido o seu trabalho na ESAC e no Centro de Ecologia Aplicada Professor Baeta Neves (CEABN – ISA/UL). É mestre em Ambiente e Recursos Renováveis e doutorado em Engenharia Florestal.

 

O projeto ClimAdaPT.Local está integrado no Programa AdaPT, gerido pela Agência Portuguesa do Ambiente, IP (APA, IP), enquanto gestora do Fundo Português de Carbono (FPC), no valor total de 1,5 milhões de euros, cofinanciado a 85% pelo EEA Grants e a 15% pelo FPC. O projeto beneficia de um apoio de 1,270 milhões de euros da Islândia, Liechtenstein e Noruega através do programa EEAGrants, e de 224 mil euros através do FPC. O objetivo do projeto ClimAdaPT.Local é desenvolver estratégias municipais de adaptação às alterações climáticas.


A publicação deste artigo faz parte de uma colaboração entre a revista Smart Cities e os parceiros do projecto ClimAdaPT.Local.

 

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