2015-10-21

ALTERAÇÕES CLIMÁTICAS E QUALIDADE DO AR: IMPACTOS E ADAPTAÇÃO

Carlos Borrego, Helena Martins e Myriam Lopes*

O Ar é um recurso natural essencial à vida, sendo aquele de que o ser humano mais depende para o desempenho de uma das suas funções biológicas mais básicas. Neste sentido, facilmente se deduz que a garantia da sua qualidade é condição indispensável para a saúde humana e qualidade de vida.


Os problemas de poluição atmosférica existem desde sempre: vulcões, fumarolas, fogos florestais e poeiras do deserto constituem fontes naturais de poluentes atmosféricos. Mais recentemente a queima de combustíveis, as práticas de agricultura e diversos tipos de indústria deram origem a graves problemas de poluição atmosférica incluindo, entre outros: poluição interior, poluição fotoquímica, deposição ácida, depleção da camada de ozono e alterações climáticas (AC).


A poluição atmosférica afeta em todo o mundo milhões de pessoas, sendo considerada pela Organização Mundial de Saúde a principal causa de morte devido a fatores ambientais, contribuindo ainda para a perda de anos de vida. Tal como no resto do mundo e na Europa, a qualidade do ar é um problema atual em Portugal, verificando-se, principalmente nas zonas urbanas mais densamente povoadas, ultrapassagens aos padrões de qualidade do ar legislados. Os poluentes mais críticos são as partículas inaláveis (PM10) e os poluentes fotoquímicos como é o caso do ozono (O3). A poluição atmosférica pode ser agravada pelas condições meteorológicas, nomeadamente temperaturas muito baixas no inverno que contribuem para a estagnação atmosférica e impedem a dispersão dos poluentes, ou temperaturas elevadas no verão que, associadas à elevada radiação solar, contribuem para a poluição fotoquímica.


As AC colocam um desafio acrescido à gestão da qualidade do ar e à luta contra a poluição atmosférica. As previsões de clima futuro para Portugal apontam para o aumento da temperatura média anual e, no período de Verão, a diminuição da precipitação e sua concentração em períodos de precipitação intensa, contribuindo para cheias e inundações, bem como para o consequente aumento dos períodos de seca prolongada. Este cenário é favorável à ocorrência de ondas de calor e ao aumento do índice de risco de incêndio florestal. A associação destes fatores aponta para uma tendência de degradação da qualidade do ar e da exposição humana com consequências para a saúde.

As áreas urbanas surgem como um dos tópicos de investigação em destaque dada a conjugação dos efeitos das AC e do crescimento urbano, que resultarão no aumento da vulnerabilidade da população a problemas ambientais, tais como ondas de calor, eventos de precipitação extrema ou fraca qualidade do ar. Nesse sentido, é fundamental o desenvolvimento e implementação de estratégias de adaptação às AC nas cidades, já que estas exercerão pressão não apenas sobre infraestruturas «pesadas», como as estradas, casas, redes de esgotos, mas também sobre infraestruturas «leves», como os sistemas de saúde. As cidades originam «ilhas de calor», que são mais quentes do que as zonas rurais, onde o risco de mortalidade é elevado para os idosos e crianças, criando um novo tipo de desafio para os sistemas de saúde.


A adaptação às AC em áreas urbanas passa pela implementação de três tipos de medidas:

  • Opções não estruturais, tais como a definição e implementação de políticas, estratégias e processos (planos regionais e urbanos, planos de ordenamento, etc.);
  • Infraestruturas cinzentas (IC), que incluem intervenções de engenharia (construção de diques, paredões, etc.) com o objetivo de controlar a ameaça ou prevenir os seus efeitos;
  • Infraestruturas verdes (IV) baseadas na natureza, e que promovem o aumento da resiliência utilizando as funções e serviços dos ecossistemas.


O papel das infraestruturas verdes na adaptação às AC

 

As IV estão a assumir uma importância crescente no combate aos efeitos das AC em áreas urbanas, incluindo a promoção de uma melhor qualidade do ar. Mas o que são IV? De acordo com a Comissão Europeia, uma IV é uma solução natural com benefícios a diversos níveis (ambiental, económico e social), mais barata e durável que IC, e baseada no princípio de integração da protecção e promoção da natureza nas decisões de planeamento e desenvolvimento territorial. Exemplos de IV incluem telhados azuis, verdes e brancos; superfícies permeáveis; ruas verdes; silvicultura urbana; espaços verdes abertos, tais como parques e zonas húmidas; e adaptação de edifícios para lidar melhor com inundações e tempestades costeiras.


Os benefícios das IV em termos de adaptação às AC estão principalmente relacionados com sua capacidade de moderar o impacto dos extremos de precipitação e temperatura, reduzindo os efeitos da ilha de calor urbana e contribuindo para a melhoria da saúde humana e qualidade do ar. Outros benefícios incluem uma melhor gestão de escoamento de águas pluviais, captação e conservação de água e prevenção de inundações. Assim, comparando com as IC, usualmente definidas com um único objectivo, as IV fornecem múltiplos benefícios. Por exemplo, a plantação de árvores permitirá a filtração da água, abrandamento do escoamento, arrefecimento local e regional de calor e ar limpo.

São também fatores decisivos para o desenvolvimento de cidades resilientes e sustentáveis a promoção de transportes públicos, da microgeração de eletricidade (solar fotovoltaico) e de fomento às energias renováveis, e o estímulo do teletrabalho. Importa não esquecer a prevenção e preparação na resposta a emergências, capacitando os agentes locais (por exemplo, a proteção civil) com os meios e conhecimentos necessários à intervenção em caso de eventos extremos climáticos ou de poluição. Neste sentido, é necessário desenvolver bons planos de ação, formar, treinar e sensibilizar todos os intervenientes, incluindo a generalidade dos cidadãos.

 

 

*Nota sobre os autores


CESAM Depto. Ambiente e Ordenamento, UA


Carlos Borrego é Professor Catedrático da Universidade de Aveiro. Há 40 anos que trabalha no domínio do ambiente, com o enfoque na qualidade do ar, alterações climáticas, avaliação ambiental e desenvolvimento sustentável. Através do IDAD tem coordenado projetos de cooperação com a Sociedade.

Helena Martins é Bolseira Pós-Doutorada na Universidade de Aveiro. Doutorada em Ciências Aplicadas ao Ambiente, desenvolve investigação há 15 anos no domínio da poluição atmosférica, com o enfoque na modelação numérica da qualidade do ar e alterações climáticas às escalas regional e urbana.


Myriam Lopes é Professora Auxiliar da Universidade de Aveiro e Investigadora Integrada do laboratório associado Centro de Estudos do Ambiente e do Mar (CESAM). Engenheira do Ambiente de formação, tem trabalhado na área da gestão ambiental, qualidade do ar e saúde, alterações climáticas e energia e sustentabilidade urbana.

 

A Universidade de Aveiro, através do Centro de Estudos do Ambiente e do Mar (CESAM), é um dos parceiros do consórcio do projeto ClimAdaPT.Local.
http://climadapt-local.pt

A publicação deste artigo faz parte de uma colaboração entre a revista Smart Cities e os parceiros do projecto ClimAdaPT.Local

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