2015-11-04

As alterações climáticas e a adaptação das zonas costeiras ao problema da erosão

Carlos Coelho*

O litoral português sofre processos de erosão ao longo da generalidade da sua linha de costa, o que coloca em perigo bens, infraestruturas e atividades económicas. A erosão costeira resulta de um processo natural de redistribuição de sedimentos associado ao défice de fornecimento de areias e à dinâmica sedimentar litoral, pelo que um sistema costeiro essencialmente arenoso, sujeito a um clima de agitação marítimo muito energético, é mais sensível ao problema da erosão.

Por isso, o trecho litoral do centro de Portugal, entre Ovar e a Marinha Grande é das zonas mais vulneráveis e expostas, onde se regista um importante défice sedimentar, em grande parte devido à artificialização do rio Douro.


De facto, neste troço do litoral, a grande responsabilidade do problema de erosão resulta da redução de sedimentos provenientes dos rios a Norte, nomeadamente o rio Douro, onde se construíram barragens, originando grandes reservatórios de águas calmas (albufeiras), nos quais a velocidade de escoamento não é capaz de transportar as areias. Associada ao comportamento das albufeiras está também a capacidade de amortecimento de caudais de cheia, evitando inundações, mas traduzindo-se também numa redução da capacidade de transporte sedimentar. Extração de areias, dragagens, artificialização de canais e revestimento de margens são outras ações antropogénicas sobre os rios com impacto na orla costeira. No próprio litoral, as estruturas portuárias e as obras de defesa costeira também condicionam o transporte sedimentar, tendo impactos importantes nas zonas vizinhas.


As alterações climáticas (AC) vêm agravar o cenário fragilizado que resulta da erosão no litoral. A subida do nível do mar permite que a posição da linha de costa avance para terra. As AC têm também impactos nas características e na frequência de tempestades e precipitação. Como consequência destas alterações prevê-se que se possa registar com mais frequência ondas mais altas e com rumos mais rodados a Norte. Assim, de um modo geral, as AC podem aumentar o nível médio da superfície da água do mar, bem como a capacidade energética da agitação, representando maior capacidade de transportar sedimentos. Por outro lado, podem alterar a orientação da agitação, definindo novas posições de equilíbrio para a configuração da linha de costa.


Estes cenários representam um peso relativamente pequeno no problema da erosão costeira: estima-se atualmente que a importância das AC no recuo da posição da linha de costa seja inferior a 20%, já que o défice sedimentar é a origem da grande maioria dos problemas na generalidade do litoral Português. No entanto, no futuro, não havendo sedimentos disponíveis para a deriva litoral e estando a posição da linha de costa ajustada a esse novo cenário, a subida do nível do mar e a altura das ondas incidentes sobre o litoral passariam a ter um maior peso nos problemas costeiros, originando a ocorrência de galgamentos e inundações mais frequentes nas frentes costeiras.


Para mitigar o problema da erosão costeira, têm sido discutidas duas vertentes de análise: atuar sobre as causas e/ou atuar sobre as consequências.


No primeiro caso, como preconizado pelo Grupo de Trabalho do Litoral (criado pelo governo em 2014), pode‑se reduzir o défice sedimentar costeiro recorrendo à alimentação artificial de areias. Esta medida pode e deve ser conjugada com outras soluções de defesa costeira, de forma a otimizar a permanência das areias nos locais intervencionados. Para reduzir o efeito da ação humana, a atividade portuária deve também proceder à colocação de areias de dragagens dos canais de navegação a sotamar dos portos, para que os sedimentos voltem ao sistema costeiro e percorram o seu caminho natural.


No segundo caso, incidindo sobre as consequências, pode-se reduzir a exposição retirando bens e infraestruturas de zonas de risco (adaptando construções ou relocalizando) ou, em alternativa, optando por proteger o património, através da construção de diferentes obras de defesa costeira, nomeadamente estruturas que condicionem o transporte de sedimentos, quer sejam perpendiculares à linha de costa (por exemplo, os esporões) ou paralelas (como os enrocamentos longitudinais em pedra ou os quebramares destacados).


Refira-se que nenhuma obra de defesa introduz areia no sistema costeiro, pelo que há apenas uma transferência da localização do problema de défice sedimentar, beneficiando a zona a proteger e prejudicando outra, menos vulnerável.


A adaptação aos cenários de alterações climáticas passa pela consideração conjugada de todas as opções atrás descritas, desenvolvendo sempre análises custo-benefício em horizontes temporais de médio/longo-termo e tendo em conta cenários de alimentação artificial de areias, relocalização de infraestruturas e bens ou ainda a proteção do património com recurso a obras de defesa costeira.

 

*Nota sobre o autor


RISCO e Departamento de Engenharia Civil da Universidade de Aveiro

 

Carlos Coelho é Professor Auxiliar no Departamento de Engenharia Civil da Universidade de Aveiro, onde completou o Doutoramento em Engenharia Civil, na área da Engenharia Costeira. É responsável por diversas Unidades Curriculares no domínio da Hidráulica do Mestrado Integrado em Engenharia Civil, da UA.

A Universidade de Aveiro é um dos parceiros do consórcio do Projeto ClimAdaPT.Local

O projeto ClimAdaPT.Local está integrado no Programa AdaPT, gerido pela Agência Portuguesa do Ambiente, IP (APA, IP), enquanto gestora do Fundo Português de Carbono (FPC), no valor total de 1,5 milhões de euros, cofinanciado a 85% pelo EEA Grants e a 15% pelo FPC. O projeto beneficia de um apoio de 1,270 milhões de euros da Islândia, Liechtenstein e Noruega através do programa EEAGrants, e de 224 mil euros através do FPC. O objetivo do projeto ClimAdaPT.Local é desenvolver estratégias municipais de adaptação às alterações climáticas.

A publicação deste artigo faz parte de uma colaboração entre a revista Smart Cities e os parceiros do projecto ClimAdaPT.Local

VOLTAR

NOTÍCIAS RELACIONADAS

2017-11-16
Agências de Energia e Ambiente e a cooperação territorial em discussão
No próximo dia 6 de Dezembro, o Cineteatro Municipal João Mota, em Sesimbra, recebe o Encontro Nacional das Agências...
2017-10-04
Alfa-AMA: Combater as alterações climáticas num bairro esmagado pelo turismo
No bairro de Alfama, é hoje difícil escapar à febre do turismo, mas duas investigadoras portuguesas estão...
2017-07-07
G19, estão prontos para salvar o planeta?
“Unidos para salvar o planeta”. É assim que 52 cidades do mundo, representando mais de 275 milhões de cidadãos,...
2017-03-21
Encontro Nacional debate o clima em Loulé
Loulé recebe, no próximo dia 7 de Abril, o Encontro Nacional “O Desafio do Clima”. A iniciativa decorre no...
VER TODAS