2017-11-07

Comunidade ou cidade – qual o caminho a seguir?

Sara Leite*

Convido-vos a refletir sobre o conceito de interdependência. Através da sua origem etimológica – inter + dependência –, chegamos facilmente ao seu significado lato: relação de dependência entre sujeitos ou entre coisas. 

 

Analisando os significados de cidade – meio geográfico caracterizado por uma forte concentração populacional – e de comunidade – conjunto de pessoas que vive num determinado território –, torna-se natural a aplicação do conceito de interdependência entre estas duas realidades. Por este prisma, arriscar-nos-íamos a afirmar que onde há comunidade haverá cidade (abstraindo-nos obviamente do valor de densidade populacional, necessário para a classificação de cidade) e onde há cidade terá de existir comunidade.

 

Contudo, a “forte concentração populacional” a que nos referimos não se traduz necessariamente em comunidade. Uma comunidade é, por um lado, caracterizada pela intimidade e pela criação de laços, determinando o tipo de relações com valor singular e que não dependente de fatores externos, sendo, por isso, duráveis e persistentes no tempo. Por outro, numa sociedade (também ela uma “forte concentração populacional”), predominam relações motivadas por interesses exteriores, que se dão de forma racional, mutáveis e não duráveis.

 

“E em que é que isto influencia a cidade?”. Mais importante do que a interação entre o cidadão e o espaço público, a forma como os cidadãos se relacionam é fundamental para a dinâmica de uma cidade. Quando predominam relações individuais, tão características das sociedades contemporâneas, deparamo-nos com cidades feitas de “não-lugares”, ou seja, espaços construídos (como praças, ruas e parques) meramente utilitários. Já quando predominam relações de sociabilidade, resultado da existência de comunidades, presenciamos uma cidade constituída por lugares de valor antropológico, espaços vividos e atrativos. As pessoas são a chave para a definição da “cidade”, influenciando profundamente a sua condição: construída ou vivida.

 

Neste sentido, torna-se essencial repensar as cidades de hoje – que, desencorajam relações de proximidade, afastando-nos e individualizando-nos – idealizando as cidades de amanhã – mais vivas, mais comuns, atraentes e inspiradoras.

 

É neste domínio que surge a expressão e o significado da “revitalização urbana”. Revitalizar os tecidos urbanos passa por estimular a sua vivência, criando-se o contexto, mais do que ideal, real e operativo para a recriação dos valores da vida em comunidade. Não desvalorizando a influência óbvia do projeto/desenho do urbano nos nossos comportamentos (afinal de contas, somos seres vivos e, como tal, reagimos e respondemos aos estímulos e aos níveis de conforto resultantes), é possível inverter a situação, recriando novas energias e estímulos, a NOSSA energia e os NOSSOS estímulos.

 

Somos nós, como moradores, agentes económicos e cidadãos, que podemos tornar-nos os impulsionadores e os criadores de novas cidades e realidades urbanas, mais vibrantes, mais atrativas e mais inspiradoras dos seus utilizadores.

Se os conceitos de cidade e comunidade são interdependentes devemos deixar de esperar que as cidades criem comunidades. Devemos sim, CRIAR COMUNIDADES PARA (inevitavelmente) CRIAR CIDADES!

 





 

*Sara Leite nasceu em 1993 na cidade do Porto, onde se formou em Arquitetura na Faculdade de Arquitetura da Universidade do Porto. Ao longo do seu percurso académico foi fascinada pelas cidades e pelas suas dinâmicas, desenvolvendo para a sua prova final de mestrado o tema “Arquitetura como um meio para a Revitalização Urbana”, na qual é feita uma reflexão sobre o papel atual do arquiteto na cidade, realçando-se a importância do estudo e conhecimento da realidade cultural, económica e social para intervenções duráveis e de impacto. Atualmente, vive em Amarante onde gere o projeto RUA (Revitalização Urbana de Amarante), desenvolvendo métodos e estratégias de envolvimento da comunidade amarantina na transformação da cidade.


#CIDADÃO é uma rubrica de opinião semanal que convida ao debate sobre territórios e comunidades inteligentes, dando a palavra a jovens de vários pontos do país que todos os dias participam activamente para melhorar a vida nas suas cidades. As opiniões expressas são da responsabilidade dos autores e não reflectem necessariamente as ideias da revista Smart Cities.

VOLTAR

NOTÍCIAS RELACIONADAS

2017-11-16
Agências de Energia e Ambiente e a cooperação territorial em discussão
No próximo dia 6 de Dezembro, o Cineteatro Municipal João Mota, em Sesimbra, recebe o Encontro Nacional das Agências...
2017-10-24
Sharing Economy 2.0: A Plataforma Cooperativa
A TfL (Transport for London) revogou a licença da Uber para operar em Londres. Sadiq Khan, mayor da cidade, de...
2017-10-23
Nova ronda das Acções Urbanas Inovadoras arranca em Dezembro
O programa do espaço europeu para Acções Urbanas Inovadoras (UIA) revelou, na semana passada, os tópicos para a sua...
2017-10-17
Habitação, habitação, habitação
Nas recentes eleições autárquicas, a habitação tornou-se num tema dominante na agenda política e – nas maiores...
VER TODAS