2017-09-12

Esta cidade é para velhos (esta cidade é também para jovens)

Ana Baptista de Oliveira*

Um preâmbulo: irei usar o termo “velho” e não maquilhar a ideia com um termo politicamente correcto, como idoso, sénior e afins. A idade não é uma variável por si só, torna-se relevante quando conjugada com outros factores.

 

Actualmente existem diversos movimentos, institucionais, sociais e organizacionais, para tentar minimizar o abismo geracional entre os mais velhos e os mais novos e fomentar o cruzamento de experiências e perspectivas.

Valorizar o capital e o potencial humano daqueles que não são contributivamente tão activos é essencial numa sociedade que pretenda valorizar não apenas os recursos económicos, mas também, e sobretudo, os seus recursos humanos.

 

Existem diversas intervenções quase exclusivamente focadas quer nos mais velhos, quer nos mais novos, e que respeitam e endereçam as particularidades de cada uma destas franjas etárias. Existe algum sentido nisto, uma vez que há necessidades específicas que não são contornáveis ou comparáveis.

 

Não obstante, mais do que infra-estruturas e planos de actividades concebidos e desenhados especialmente para jovens ou idosos, importa ter em conta o efeito social da interacção e integração destas duas faixas etárias.

 

Promover a integração e a interacção de projectos destinados quer aos mais jovens quer aos mais velhos tem um efeito mais poderoso do que intervenções exclusivas. Disto resulta não apenas uma percepção de utilidade e propósito por parte dos intervenientes, mas também um enriquecimento pessoal e social que beneficia a malha familiar, escolar e social em geral.

 

A estes benefícios acrescem ainda os impactos positivos na saúde emocional dos próprios. Trata-se de interacções que, ao promover a auto-estima, o envolvimento social e a partilha e consciência emocional, fomentam a saúde psicológica, tantas vezes descurada.

 

Numa TED Talk, particularmente inspirada, o psicólogo Guy Winch recorda-nos de que a solidão e o isolamento social e emocional (quer sejam percebidos, quer sejam reais) é um factor de risco para a saúde e longevidade. Na verdade, este efeito tem o mesmo peso e é tão impactante como a condição de fumador. E, acrescenta Winch, enquanto os maços de tabaco tem avisos gráficos alertando para esse risco, ninguém nos avisa para a solidão. E, apesar de tudo, acaba por ser muito fácil ficar sozinho quando se pertence a uma franja menos socialmente activa e mais vulnerável da população. Daí a importância de apostar na consciência e promoção da saúde psicológica, particularmente e sobretudo nestas faixas etárias.

 

Este é o caso de um projecto conjunto entre a Protecção Civil e a Cruz Vermelha Portuguesa, que, no âmbito da interacção, prevenção e protecção locais no município da Amadora, ganhou recentemente o prémio Sasakawa para redução do risco de desastres. Sendo atribuído pela Estratégia Internacional para a Redução de Desastres das Nações Unidas (UNISDR) e pela Nippon Foundation (Japão), é um reconhecimento que nos deve orgulhar a todos, como cidadãos em geral. E que demonstra, na acção e não apenas na conjectura, que é possível ir além da ideia sonhada e fazê-la acontecer.

 

 

*Ana Baptista de Oliveira é psicóloga e formadora. É coordenadora clínica na equipa de apoio psicológico numa multinacional de serviços EAP (employee assistance programs), na qual se foca na intervenção em crise e na gestão de riscos psicossociais nos locais de trabalho. Trabalha também em intervenção clínica no Espaço Maiores, colaborando ainda com projectos na área dos Direitos Humanos. É voluntária da Ordem dos Psicólogos para intervenção em situações de catástrofe. Tem formação pós-graduada nas áreas da mudança e desenvolvimento humanos e da psicoterapia. Aprecia particularmente conceitos como empoderamento, consciência, competência, responsabilidade, e outros que traduzam a “inesgotável maravilha da potencialidade humana”.

 

#CIDADÃO é uma rubrica de opinião semanal que convida ao debate sobre territórios e comunidades inteligentes, dando a palavra a jovens de vários pontos do país que todos os dias participam activamente para melhorar a vida nas suas cidades. As opiniões expressas são da responsabilidade dos autores e não reflectem necessariamente as ideias da revista Smart Cities.

 

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