2018-02-05

A cidade como forma de contacto

Sara Leite*

A intervenção num sistema tão complexo, diverso e interdependente como a cidade obriga a uma visão coesa e transversal sobre vários temas que extravasam o mero desenho no papel. Um desses temas é sem dúvida a forma de interação entre a comunidade e o espaço físico da cidade.

 

Na última rubrica, Comunidade ou Cidade - qual o caminho a seguir?, refletimos sobre os termos Cidade e Comunidade e a sua relação inerente de interdependência, chegando à conclusão de que através da criação de COMUNIDADE estaríamos inevitavelmente a criar CIDADE.

 

Sendo a comunidade constituída por seres humanos, que têm a necessidade básica de criar laços e estabelecer relações, o espaço público surge como uma oportunidade e palco ideal para induzir este contacto. Começando pela sua natureza – público, portanto, comum – e não esquecendo as características físicas – amplitude, continuidade – que o tornam capaz de albergar todos os estímulos possíveis e necessários para a vida em comunidade.

 

O arquiteto Jan Gehl, na sua obra Life Between Buildings, apresenta-o como a form of contact – em português, uma forma de contacto – capaz de incitar à construção e ao fortalecimento do sentido de comunidade, porque…

 

… é uma forma simples de socializar e de estabelecer novos contactos – a utilização frequente do espaço público como espaço de convívio e encontro leva-nos a manter a nossa rede de contactos de uma forma mais simples e natural (que não através de redes sociais);

… é uma fonte de inspiração – quando utilizamos o espaço público, estamos em contacto com os outros, com o meio e com a natureza;


… proporciona uma experiência única e estimulante – cidades com vida, onde as pessoas interagem umas com as outras, são cheias de estímulos e experiências que nos atraem e retêm. Não existe monotonia quando andamos no meio de pessoas.

 

Mas o que é que torna estes espaços públicos atrativos? Qual o estímulo necessário para levar à vivência que o transformará numa forma de contacto? Se pensarmos nas ruas comerciais com artistas de rua, muito mais atrativas do que outras com o mesmo fim, percebemos que são as atividades humanas o principal impulso à vivência do espaço público.

 

É importante estarmos conscientes de que a crescente falta de vivência do espaço público tem levado ao enfraquecimento do sentimento de comunidade e pertença.

 

É urgente um retorno à cidade, à praça, à rua. A cidade sem capital humano não passa de um conjunto de espaços e edifícios sem qualquer atrativo, isto é, um MEIO, mas não um FIM. Nós somos os agentes detentores da ENERGIA CAPAZ DE TRANSFORMAR e mudar a CIDADE. O que nos falta é trazê-la para a rua!




*Sara Leite nasceu em 1993 na cidade do Porto, onde se formou em Arquitetura na Faculdade de Arquitetura da Universidade do Porto. Ao longo do seu percurso académico foi fascinada pelas cidades e pelas suas dinâmicas, desenvolvendo para a sua prova final de mestrado o tema “Arquitetura como um meio para a Revitalização Urbana”, na qual é feita uma reflexão sobre o papel atual do arquiteto na cidade, realçando-se a importância do estudo e conhecimento da realidade cultural, económica e social para intervenções duráveis e de impacto. Atualmente, vive em Amarante onde gere o projeto RUA (Revitalização Urbana de Amarante), desenvolvendo métodos e estratégias de envolvimento da comunidade amarantina na transformação da cidade.


#CIDADÃO é uma rubrica de opinião semanal que convida ao debate sobre territórios e comunidades inteligentes, dando a palavra a jovens de vários pontos do país que todos os dias participam activamente para melhorar a vida nas suas cidades. As opiniões expressas são da responsabilidade dos autores e não reflectem necessariamente as ideias da revista Smart Cities.



Foto: © Sorbis / Shutterstock.com

 

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