2017-06-19

Humanizar

Mário Meireles*

Em plena era tecnológica, na qual começam a surgir os primeiros veículos autónomos e os drones e a robótica ganham força na vida das cidades, fala-se em humanizar as cidades e, até mesmo, em humanizar algumas coisas que as pessoas fazem. Parece estranho. Como é que se humaniza uma atividade de um humano? É redundante, não é? Bem, quando temos pessoas que acham que o dinheiro vem do multibanco, que o leite vem da prateleira do supermercado, que as cidades foram construídas para os carros, talvez não seja assim tão redundante.

 

É, então, um regresso às origens que devemos fazer? Claro que não. Devemos aproveitar toda a capacidade tecnológica que hoje temos para nos ajudar a ser humanos. Pensar e refletir sobre as coisas e dar valor ao que é importante. E ter a consciência e a capacidade de aceitar que todas as pessoas são necessárias e que nem todas têm de andar de carro, trabalhar numa secretária ou ter formação em 20 cursos. Todas as pessoas são importantes.

 

As cidades foram feitas para as pessoas (ponto). Desde o ano 7000 antes de Cristo, temos cidades que são constantemente habitadas pelo ser humano e que assim perduram até hoje. Foram capazes de acompanhar a invenção da roda (4000 a.C), das carroças e da bicicleta (12 de junho de 1817) e conseguiram sobreviver durante quase 9000 anos sem o automóvel. E só nos últimos 100/150 anos é que viram o automóvel invadir as suas ruas.

Os principais problemas numa cidade não têm a ver com as pessoas que andam a pé ou com as pessoas que andam de bicicleta ou com as pessoas que usam o transporte público, mas, sim, com as pessoas que andam de automóvel individual e que julgam que a cidade é para os carros e que todo o espaço público é seu por direito. Pois bem, não é, ou seria “espaço privativo automóvel”. Mas, de entre todos os modos que eu referi, há uma coisa em comum: as pessoas, os humanos. E é, por isso, importante centrar as políticas das cidades, a regeneração das cidades, nas pessoas.

 

Hoje, as cidades têm a possibilidade de se tornarem eficientes e sustentáveis e de darem a possibilidade às pessoas de usufruírem, verdadeiramente, daquilo que foi construído para elas. Qual é o som das nossas cidades? Qual é o cheiro? O que é tão característico nelas? Há uns anos, tive uma experiência incrível. Viajei para uma cidade com mais de 1 milhão e meio de habitantes, onde muitas pessoas utilizavam a bicicleta e os transportes públicos e algumas o carro. Antes de ir para lá, pensei que não veria praticamente carro nenhum, mas vi uns quantos – bem mais do que imaginava –, mas não foi isso que me surpreendeu. O que me surpreendeu foi o facto de, no meio de prédios e de muita atividade humana de rotina, eu continuava a conseguir ouvir os pássaros, ouvir as pessoas a conversar pelas ruas, ver as cores da cidade e sentir os cheiros da cidade. Não, não me refiro ao cheiro do tubo de escape, que é o característico da cidade. É o cheiro a pão, o cheiro a terra molhada, o cheiro de suor ou dos perfumes, o cheiro das árvores e das folhas. Cheiros que, nas nossas cidades, só conseguimos sentir nos parques.

 

Outra coisa que me surpreendeu foi o ruído. Cheguei a fechar os olhos e conseguia ouvir as campainhas das bicicletas, os pneus das bicicletas a rolar, os passos das pessoas, os risos e as gargalhadas. Hmmmm, o futuro é isto! O futuro é humano, é inteligente. O futuro são cidades com pessoas a utilizar mais a bicicleta e os transportes públicos e menos a lata com 2 por 5 metros, que não acrescenta nada de bom ao nosso espaço. O futuro das cidades já existe lá fora, está na hora de replicá-lo em Portugal!



* Fã incondicional das duas rodas sem motor, Mário Meireles é formado em Engenharia Informática, mas encontrou inspiração na área da mobilidade sustentável, na qual se pós-graduou e está actualmente a tirar o Doutoramento. Trabalha nos Transportes Urbanos de Braga e faz parte da associação Braga Ciclável, coordenando iniciativas como o Braga Cycle Chic ou debates e palestras sobre mobilidade.

 

 

#CIDADÃO é uma rubrica de opinião semanal que convida ao debate sobre territórios e comunidades inteligentes, dando a palavra a jovens de vários pontos do país que todos os dias participam activamente para melhorar a vida nas suas cidades. As opiniões expressas são da responsabilidade dos autores e não reflectem necessariamente as ideias da revista Smart Cities.

 

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