2017-10-11

As cidades inteligentes precisam de música?

Sound Diplomacy*

As Cidades Inteligentes com Música criam oportunidades económicas através da música, atraem uma força de trabalho altamente qualificada e melhoram a logística, ao mesmo tempo que reforçam a oferta cultural. Planear uma Cidade com Música é, na sua essência, planear uma cidade aberta, inovadora e sustentável.

 

 

Cidades com música enquanto cidades sustentáveis

Todas as cidades têm talento musical, desde as ruas às salas de espetáculos. A música pode ser escutada em qualquer sítio, até mesmo através de colunas em centros comerciais, estações de metro, hospitais e parques de estacionamento. É uma das impulsionadoras das economias da vida noturna das cidades de todo o mundo, proporcionando dezenas de milhares de postos de trabalho e milhares de milhões em contribuições monetárias. Contudo, apenas algumas cidades possuem estratégias para planear, gerir, desenvolver e explorar o seu talento musical. São as Cidades com Música. Dispõem de uma estrutura para regular, licenciar e permitir música, eventos e outras iniciativas musicais. Dão prioridade à educação musical e têm políticas para gerir os riscos associados à música, desde o ruído à segurança. As Cidades com Música podem ser pequenas cidades, áreas metropolitanas, países ou regiões, e exploram o papel da música nas vertentes de planeamento, quer a nível local, quer a nível estrutural. Criam oportunidades económicas através da música, atraem uma força de trabalho altamente qualificada e melhoram a logística, reforçando simultaneamente a oferta cultural. Planear uma Cidade com Música é, na sua essência, planear uma cidade aberta, inovadora e sustentável.

 

O processo de planeamento estrutural em termos de Cidades com Música analisa a forma como a música e outros tipos de cultura têm um impacto no desenvolvimento, seja nos centros urbanos, seja em zonas comerciais, projetos de recuperação ou edifícios individuais. O nosso primeiro evento, “Music Cities Convention” (Convenção de Cidades com Música), nasceu em 2015 sob o mote “uma indústria musical forte e sustentável é a forma mais eficiente de criar, manter e expandir cidades vibrantes e prósperas do ponto de vista económico”. O debate ganhou mais importância nos últimos dois anos e expandiu-se noutros dois eventos que exploram a música e o urbanismo em setores específicos.

 

Efetivamente, as Cidades com Música são cidades inteligentes pela sua capacidade em melhorar a qualidade de vida, o investimento em infraestruturas inteligentes e a gestão urbana proativa. Contudo, as Cidades com Música devem dar mais um passo em frente e melhorar a prospeção e análise de dados para ajudar a concretizar a visão dos responsáveis pelo planeamento e desenvolvimento urbanos através da música. A análise dos macrodados da indústria da música tem de ser incluída nas estratégias da Cidade com Música para justificar o valor do planeamento, design e gestão (placemaking) de espaços com música junto dos governos e das organizações. À medida que as cidades se transformam em cidades inteligentes e utilizam análises e estratégias com base em dados, devem ser partilhados mais dados da indústria da música local para melhorar os nossos sistemas urbanos.

 

Alterar a perceção da música: de incómodo a vantagem

Atualmente, várias cidades estão a tornar-se mais inteligentes através da incorporação da música no planeamento urbano. Tomemos como exemplo as habitações a preços acessíveis, que é um desafio de planeamento para todas as cidades em crescimento. A procura de habitação por profissionais criativos com baixos rendimentos está a crescer nas cidades e regiões, mas as fracas condições de trabalho e as fontes de rendimento irregulares afetam em particular os artistas do meio musical. Embora seja amplamente reconhecido que as comunidades de artistas têm um impacto positivo sobre as cidades, e que a maioria tem de lutar para conseguir pagar as contas, os artistas são muitas vezes tratados como agentes de gentrificação pelos analistas financeiros e moradores deslocados.

 

Promover e reter as comunidades de artistas representa um desafio nas áreas metropolitanas de grande dimensão, onde as listas de espera para as habitações subsidiadas e o custo de vida estão a registar um crescimento impressionante. Em 2015, o presidente da câmara de Nova Iorque anunciou planos para a disponibilização de 1500 unidades de habitação acessível reservadas exclusivamente para profissionais criativos com baixos rendimentos, juntando-se aos anteriores esforços da cidade e de outros municípios dos EUA, utilizando créditos fiscais para financiar o alojamento para artistas. Apesar das boas intenções destas medidas, as habitações subsidiadas para artistas discriminam determinados profissionais criativos (ou seja, pessoas com um portefólio fraco ou inexistente), acabando por promover menos diversidade nas comunidades que acolhem. Por outro lado, as organizações independentes, como a Artspace, nos EUA, e a Artscape em Toronto, no Canadá, estão a abrir caminho para o placemaking criativo baseado em desenvolvimentos de utilização mista. A título de exemplo, o projeto “Artscape Distillery Studios”, em Toronto, revitalizou uma área onde outros empreendedores não foram bem sucedidos, graças à utilização das artes e da cultura como catalisadores. Dando destaque ao trabalho dos artistas e às unidades habitacionais, por exemplo, a Artscape promove a coexistência de utilizações e ambientes diurnos e noturnos vibrantes, permitindo que as unidades habitacionais acessíveis para artistas coexistam com os condomínios mais convencionais.

 

A indústria da música alimenta a economia mais subvalorizada de uma cidade: a economia ligada à vida noturna. Alguns governos locais estão agora a conduzir debates relativos ao tema, depois de perceberem que a administração urbana deve planear a vida noturna e a vida diurna de forma adequada. Na luta para tornar-se numa verdadeira cidade ativa ao longo de 24 horas, Amesterdão está a inovar os licenciamentos e a subdivisão em zonas, movendo espaços noturnos e zonas de entretenimento para a periferia da cidade. A cidade holandesa tem sete espaços noturnos com licenças de funcionamento de 24 horas, principalmente graças a Mirik Milan, o empenhado Night Mayor (responsável pela vida noturna da cidade), que tenta orientar o governo de Amesterdão em nome da indústria de estabelecimentos noturnos. E não é por existirem espaços noturnos abertos 24 horas que as ruas estão constantemente apinhadas de “foliões”. Os novos espaços noturnos estão relativamente afastados das zonas residenciais e estão bem servidos de transportes públicos (sem esquecer a cultura universal de uso de bicicletas na Holanda). Além disso, como é possível entrar e sair dos espaços a qualquer hora, existem menos picos de ruído ambiental. Durante o dia, estes locais oferecem utilizações alternativas que trazem benefícios às redondezas de forma geral.

 

Debrucemo-nos no “De School”, uma antiga escola técnica transformada em espaço noturno, que tem, desde 2015, uma licença de funcionamento de 24 horas. Este local em Amesterdão promove espetáculos de música ao final da tarde e à noite, mas também dispõe de um restaurante, café, ginásio e diferentes espaços de arrendamento. Estimulando os espaços de utilização mista e as licenças de funcionamento prolongado, é possível criar uma harmonia entre a vida diurna e noturna. É uma forma de ajudar à coexistência da música na comunidade, mas também aproxima a música dos cidadãos, que, de outra forma, não visitariam um espaço desta natureza.


Nos locais onde não existe a possibilidade de deslocalização das zonas de entretenimento e espaços musicais para os limites da cidade, há algumas recomendações chave que podem ajudar a alterar os regulamentos relativos ao ruído e à adaptação do ordenamento do território. O princípio do “Agente de Mudança” coloca a responsabilidade das medidas de gestão do ruído nas mãos do “agente de mudança”, seja um indivíduo, seja um negócio. Pode tratar-se de um morador que se muda para um apartamento junto a um espaço com música já existente, ou de um empreendedor que está a construir um novo espaço com música junto a um edifício residencial. O princípio já foi adotado em determinados locais na Austrália, Reino Unido e EUA e está a revelar-se um sucesso. Este princípio contribui para um melhor planeamento e desenvolvimento, sendo uma ferramenta essencial para a coexistência sustentável entre a música e as pessoas nas cidades.

 

Estratégias relacionadas com música para um melhor urbanismo

Uma cidade inteligente sem uma estratégia relacionada com música está a desvalorizar os potenciais benefícios da música para os seus cidadãos e para a oferta cultural. Todas as cidades e regiões deveriam ter uma política e departamento em prol da música, contando com o contributo de todos os setores no sentido de melhorar continuamente. Uma estratégia ligada à música contribui para cidades inteligentes com recolha de dados, indicadores e um quadro de infraestruturas. Apoia a polinização cruzada dos profissionais da música e, por acréscimo, as indústrias criativas. Quantas mais pontes forem construídas entre os setores, mais inteligente e sustentável será uma Cidade com Música. A governança é uma peça fundamental na conceção de uma Cidade com Música sustentável, desde as administrações locais aos organismos representativos da indústria e dos cidadãos, sendo que todos devem trabalhar em conjunto para melhor apoiar as necessidades e os objetivos da cidade.

 

O mapeamento de organizações, locais e espaços com música já existentes constitui o primeiro passo para o desenvolvimento de uma estratégia centrada numa Cidade com Música. Por exemplo, o mapeamento de espaços com música ajuda a focar a atenção em intervenções mais pequenas e mais diversificadas onde forem mais necessárias. O líder do grupo de trabalho para os espaços musicais em Londres elaborou um Plano de Resgate de Locais Musicais de Base depois de perceber que 35 % dos espaços da capital inglesa tinham fechado entre 2007 e 2015. Os espaços musicais de base são extremamente importantes para a sustentabilidade da indústria. No entanto, as ameaças dos setores de desenvolvimento e planeamento, para além dos moradores e de outros espaços culturais, enfraquecem a sua importância. Graças à monitorização dos espaços existentes, e aos esforços conjuntos da indústria e da Junta da Área Metropolitana de Londres (Greater London Authority), a cidade está a preservar e a dinamizar um dos seus recursos mais reconhecidos: a sua cultura musical. O investimento inteligente em vertentes de desenvolvimento, como a formação musical e os espaços musicais de base, é um passo em frente para que qualquer cidade consiga criar cidades inteligentes sustentáveis e cidadãos inteligentes do futuro.

 

Não obstante, o investimento em estratégias inteligentes, como uma estratégia de Cidade com Música, ainda não é considerado uma prioridade para a maioria dos governos. Embora o nosso trabalho vise mudar esta mentalidade, as práticas de “urbanismo musical” visíveis em todo o mundo são essencialmente um produto de experimentação, experiências comunitárias e a música inata das nossas culturas. Por exemplo, uma análise ao urbanismo musical de Teerão mostra como os espaços onde as pessoas se juntam distinguem os cidadãos pelos seus gostos musicais, entre outros aspetos. Os ouvintes de música persa tradicional encontram-se quase exclusivamente nas casas de chá da capital, localizadas junto aos mercados, ao passo que os jovens das classes média e alta se reúnem nos cafés a norte e escutam música contemporânea. O pop comercial é propagado através dos carros dos jovens de Teerão por toda a cidade, e as pessoas aceitaram estes sons como parte do urbanismo da cidade. Em Madrid, uma iniciativa de “Living Lab” desenvolveu a Semilla Boombox, um serviço de música colaborativo criado para os espaços públicos. Testada em diferentes cidades europeias, a Boombox pode reproduzir uma playlist do Spotify criada por qualquer pessoa junto do dispositivo que inicie sessão no seu wi-fi integrado, e os utilizadores até podem votar na música que será reproduzida a seguir. O dispositivo foi utilizado em diferentes projetos, estimulando a coesão social e a participação dos jovens através da música em espaços públicos. Por último, pelas cidades de todo o mundo, os músicos de rua podem obter um rendimento criando simultaneamente uma experiência positiva para os transeuntes. Embora as apresentações de rua sejam apoiadas por diferentes programas e patrocinadas por associações, a participação do governo limita-se essencialmente à regulamentação. É necessário fazer mais para proteger e dinamizar a presença da música nas nossas cidades.

 

Em suma, a música torna as cidades melhores, mas são poucas as que tiram partido disso. Estamos a construir cidades mais inteligentes, e as estratégias ligadas à Cidade com Música devem ser fundamentais na criação de modelos urbanos integrados, sustentáveis e vibrantes para o futuro. 

 

 

*Sound Diplomacy é uma consultora internacional especializada na valorização da música e cultura nocturna nas cidades.

 

 

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