2016-11-18

Por que devem as cidades liderar o combate às alterações climáticas?

São as principais emissoras de gases com efeito de estufa e são também quem mais sofre com o impacto das mudanças climáticas. Na COP22, conferência das Nações Unidas sobre alterações climáticas, que termina hoje em Marraquexe (Marrocos), um dos dias foi dedicado às cidades e ao papel que estas terão de desempenhar neste desafio. Hoje, cabe a grupos como o C40, rede global de 86 cidades, que congrega mais de 600 milhões de pessoas e representa 25% do PIB mundial, promover o protagonismo das cidades no ataque às alterações climáticas.


O poder das cidades é enorme, mas é tão grande quanto a sua vulnerabilidade. Segundo a Organização das Nações Unidas, mais de 54% da população mundial vive actualmente em áreas urbanas, prevendo-se ainda que a população urbana mundial venha a duplicar até 2050. Com o crescimento das cidades, vem também o crescimento dos consumos; as cidades consomem dois terços da energia gerada a nível global, são responsáveis por mais de 70% das emissões mundiais de dióxido de carbono (CO2) e 90% de todas as áreas urbanas localizam-se junto à costa, o que as coloca em sério risco de cheias. São, em boa parte, causa do aquecimento global e serão as primeiras a sentir na pele os efeitos. Têm, por isso, de liderar a mudança.


“As cidades estão no centro da luta contra a mudança climática, por serem a principal fonte de emissões e por acolherem a maior parte da população humana. Elas terão de protagonizar grande parte da solução para o problema. Na vertente da mitigação, a solução caracteriza-se essencialmente por descarbonizar a economia urbana. Utilizar muito mais as energias renováveis, usar sistemas energéticos mais eficientes nas infra-estruturas e residências, recorrer a redes de energia inteligentes e racionalizar a mobilidade”, escreveu o especialista Filipe Duarte Santos, num artigo de opinião para a Smart Cities.


A eficiência das infra-estruturas e o planeamento urbano serão fundamentais para a sustentabilidade das cidades. Mudanças ao nível da mobilidade, do uso de recursos e da geração de energia são hoje um imperativo sem discussão.

Não menos importante é a questão da adaptação. “É também necessário adaptar as cidades a um clima em mudança”, alertou o especialista. A Europa publicou, em Abril de 2013, a sua estratégia nesse sentido. No início deste ano, um quarto das cidades europeias já tinham elaborado uma estratégia de adaptação, mas nem todas avançaram imediatamente para a implementação. Em Portugal, cinco anos depois da Estratégia Nacional aprovada (em 2010), arrancou o projecto ClimAdaPT.Local, que visa a elaboração de estratégias de adaptação às alterações climáticas em 26 municípios.


Crucial para que tudo isto funcione é a definição de objectivos. Números dados a conhecer pelo C40 mostram que, quando são delineadas metas a cumprir, a probabilidade de as cidades agirem é três vezes superior.


Desde sempre centros de comércio, inovação e cosmopolitismo, as cidades apresentam-se, agora, como os instrumentos por definição na luta contra as alterações climáticas. E, segundo o C40, o trabalho de equipa entre cidades traduz-se em resultados, nomeadamente quando se fala em intervir com maior rapidez e a uma escala maior. Acções de adaptação e mitigação planeadas em conjunto geram um impacto colectivo enorme. A expressão Think Global, Act Local é de particular importância nesta luta.

Numa altura de incertezas, em que os olhos estão postos em Marraquexe, onde se discute a implementação do Acordo de Paris, e a eleição do céptico Donald Trump como presidente dos Estados Unidos assombra o futuro, uma coisa é certa: as cidades vão ter de se reinventar e vão ter de ser capazes de inverter o rumo, sob pena de levar o mundo para território inexplorado.

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