2017-10-10

Episódio 3 - Incerteza fundamental (Black Swans)

Pedro Portela*

Consideremos dois cenários: o primeiro passa-se num casino. Pode ser o casino do Estoril, em frente a uma mesa de roleta. O segundo cenário passa-se numa reunião estratégica de um qualquer município, na qual se fala de estratégias para combater um problema social, como, por exemplo, o desemprego de longa duração. Consideremos também, em ambos os cenários, que temos um cofre cheio com meio milhão de euros à disposição para gastar.

 

Em que é que estas duas situações são semelhantes?

 

“Em nada!”, dirão vocês. Um jogo de casino e um problema social não têm nada a ver um com o outro: no primeiro, o que está em causa é apenas ganhar ou perder dinheiro; no segundo, estamos a falar de vidas humanas. Assim é, mas eu gostaria de explorar as diferenças um pouco mais a fundo, pois há uma à qual não damos a devida importância – a diferença entre risco e incerteza.

 

No jogo da roleta, não temos hipótese de adivinhar onde vai cair a bola. É impossível, pois a trajectória da bola depende de inúmeros factores que não conseguimos medir. Mas o resultado está condicionado. Ou seja, a bola não vai cair numa casa da cor verde-esperança, simplesmente porque essa casa não existe. Nem eu posso apostar que a bola vai sair disparada da roleta e cair na mesa do Blackjack, porque, embora isso até seja possível, não faz parte das opções de aposta. Podemos ganhar ou perder o jogo, fazendo apostas dentro de um universo limitado de futuros possíveis. E, nestas situações, uma análise de risco é apropriada. Dentro da complexidade do jogo e das regras, podemos adoptar estratégias mais ou menos arriscadas e esperar que tudo corra bem. Mas, a priori, nós conhecemos todos os possíveis cenários futuros.

 

Voltemos agora à reunião de estratégia do município. Podemos começar por simplificar a questão e reduzir o problema a um indicador, um número que queremos afectar. Neste caso, o desemprego de longa duração. E a avaliação parece simples: ou baixou ou não baixou. Mas esta perspectiva, porventura simplista, ignora todo um espectro de resultados intermédios entre o baixar e subir, que, tratando-se de um sistema que envolve seres humanos, não pode pura e simplesmente ser previsto. Esta incerteza não está relacionada com o facto de não sabermos se vamos conseguir baixar ou subir o indicador. Trata-se do que acontece para lá do indicador. Trata-se de aceitarmos que existem cenários que nem sequer sabemos que não conhecemos. Estamos perante um cenário, não de risco, mas de incerteza. Claro que podemos usar modelos sofisticados para tentar prever os resultados de uma intervenção no campo social. Mas estes modelos são baseados apenas no que conhecemos do passado. São aperfeiçoados dia após dia, mas não deixam de ser modelos que não permitem as surpresas.

 

Uma cidade inteligente tem de saber lidar com a incerteza, abraçá-la como uma fonte de inspiração e de criatividade. Deixar de reduzir toda a sua vida a análises de risco que assumem que já conhecemos tudo o que há para conhecer. Pois é das surpresas – boas e más –  que é a feita a história da Humanidade…

 




*Pedro Portela nasceu em 1980 no Porto, onde viveu, estudou e trabalhou até 2016. É candidato a doutoramento em Ciências da Complexidade pelo ISCTE-IUL. Criou o Blog “O Elefante na Sala” (www.oelefantenasala.pt), no qual divulga o seu interesse pelos novos paradigmas de gestão baseados na Teoria da Complexidade e Caos e no impacto que a forma como nos organizamos para trabalhar tem no indivíduo e na sociedade. É membro de várias redes formais e informais, das quais se destaca a Rede Global de Complexidade Social (Global Complexity Network). Colabora com uma Fundação Americana, para a qual desenvolve modelos de apoio à decisão baseados em agentes.


#CIDADÃO é uma rubrica de opinião semanal que convida ao debate sobre territórios e comunidades inteligentes, dando a palavra a jovens de vários pontos do país que todos os dias participam activamente para melhorar a vida nas suas cidades. As opiniões expressas são da responsabilidade dos autores e não reflectem necessariamente as ideias da revista Smart Cities.

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