2017-10-27

Eduardo Lopes*

O papel da gestão científica no desenvolvimento sustentável das cidades

A consciencialização dos municípios face à necessidade de definir uma estratégia de sustentabilidade é hoje uma realidade, sendo, para o efeito, crucial a aplicação de standards reconhecidos internacionalmente.


As alterações demográficas, tecnológicas, económicas e ambientais que se têm verificado ao longo dos últimos anos impactam severamente o planeamento e a gestão das cidades. Mais de metade da população mundial vive já em áreas urbanas, pelo que urge tornar as cidades cada vez mais resilientes e smart, de modo a garantir, a longo prazo, um desenvolvimento sustentável eficaz e qualidade de vida aos seus cidadãos.

A capacidade de resposta às principais mudanças por parte das cidades depende, na sua maioria, do acesso a informação que permita atuar numa ótica de planeamento e controlo de gestão, o que é feito a nível local com os vários organismos intervenientes e responsáveis. Cresce, assim, a necessidade de criar processos mais eficientes, recorrendo às melhores práticas de gestão de cidades de referência, através da padronização da medição do desempenho económico, social e ambiental.

Cientes deste desafio, comités técnicos da International Organization for Standardization (ISO) elaboraram diversas normas de orientação para o desenvolvimento sustentável das comunidades, das quais destaco a ISO 37120, publicada em 2014. Este referencial internacional estabelece um conjunto de 100 indicadores que ajudam a mensurar a performance das cidades em diferentes áreas de atuação como Economia, Ambiente, Saúde, Segurança e Planeamento Urbano, entre outras. De acordo com a quantidade de informação recolhida, o que exige um esforço transversal a cada município dada a diversidade de temas compreendidos, poderão ser obtidos diferentes níveis de certificação para as cidades, sendo o World Council on City Data (WCCD) o organismo internacional responsável por este processo. Independentemente do nível alcançado, este reconhecimento é benéfico para os municípios, pois expõe a sua aposta numa estratégia de maior transparência e melhoria contínua através do city-to-city learning. Daí, existirem já 35 cidades certificadas por esta ISO a nível global, sendo a cidade do Porto a única cidade portuguesa certificada até à data.

Com este levantamento exaustivo de dados acerca do município, desenvolve-se um esforço acrescido, mas, ao mesmo tempo, compensador, de criar uma estrutura de reporte centralizada que permita a gestão de informação de forma holística e contínua, facilitando a monitorização dos indicadores. Assim, como resultado do investimento na análise de dados através de standards internacionais, verificam-se vários benefícios para os municípios:

• Centralização de informação dispersa acerca do concelho através da criação de mecanismos de reporte;
• Identificação de lacunas existentes face às melhores práticas internacionais, com a definição de cidades de referência para uma análise de benchmarking (local e internacional);
• Avaliação eficaz do impacto de medidas locais e do retorno sobre investimento;
• Reconhecimento a nível global através de certificação pelo WCCD;
• Aumento do nível de satisfação dos habitantes dada a maior transparência;
• Potencialização de investimento através da partilha pública de dados.

A gestão científica assume, assim, um papel preponderante neste processo, pois, com base em medições precisas e dados empíricos, os municípios são capazes de tomar decisões informadas para traçar planos de ação com o objetivo de melhorar o seu desempenho. Ao invés de atuarem apoiando-se em pressupostos, as cidades ficam, então, capacitadas a validar e documentar a sua performance, permitindo a resolução dos seus desafios aplicando sobretudo métodos científicos de identificação de problemas.

Prevê-se ainda a introdução de novas normas focadas nesta temática para auxiliar os municípios, como a ISO 37101, publicada no final de 2016, que fornece diretrizes para a implementação de um sistema de gestão para o desenvolvimento sustentável, de modo a permitir aos governos locais delinearem a sua estratégia de sustentabilidade e gerirem o respetivo sistema de gestão. No início deste ano, foi também divulgada a ISO/TS 37121, que compila uma série de abordagens utilizadas por diferentes cidades e organismos internacionais no apoio à implementação e na medição da eficácia de iniciativas de resiliência.

Como se pode constatar, o desafio dos municípios não termina por aqui. Existe ainda muito trabalho a ser feito para criar mais cidades inteligentes e sustentáveis, garantindo aos cidadãos melhores condições de vida. Muitos municípios portugueses já estão a olhar para estes referenciais como uma oportunidade única para cumprir com estes objetivos, pois já se aperceberam que o risco de não seguir normativos reconhecidos internacionalmente pode conduzir a uma gestão ineficiente assente em pressupostos e com dados de difícil comparação que impossibilitam a aprendizagem entre cidades. Espera-se, portanto, excelentes referências em Portugal na adoção deste referencial no decorrer dos próximos anos. 



*Analyst no Departamento de Innovation Management da WINNING Scientific Management

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