2017-10-24

Sharing Economy 2.0: A Plataforma Cooperativa

Jorge Saraiva*

A TfL (Transport for London) revogou a licença da Uber para operar em Londres. Sadiq Khan, mayor da cidade, de imediato apoiou a decisão. A Uber recorreu, alertando sobre o efeito nefasto nos cerca de 40 mil condutores.


A resposta surgiu em forma de movimento pela New Economics. “Vamos unir os condutores da Uber e formar uma cooperativa detentora de uma plataforma semelhante!”, afirmou Stefan Baskerville, líder do movimento, “mas a semelhança à Uber é apenas tecnológica, na sua estrutura, seremos uma plataforma cooperativa, na qual os acionistas são os próprios condutores!”.


Exemplos como o de Londres proliferam em todo o mundo. Em Nova Iorque, a plataforma Juno reserva 50% das suas ações aos seus condutores. Na origem deste concorrente da Uber surge um peso pesado do empreendedorismo: Talmon Marco, ex-fundador da app Viber, vendida por 900 milhões à  Rakuten.


A oportunidade surgiu quando observava alguns dissidentes da Uber: “Explicamos-lhes o nosso modelo ainda antes de termos o financiamento necessário. Queríamos dar uma percentagem aos condutores e fazer deles verdadeiros sócios!”, conta Talmon.

Em Portugal, na área da energia, a Coopérnico foi fundada por um grupo de 16 cidadãos. Hoje, os 762 membros e um investimento superior a 650 mil euros demonstram que este futuro paradigma económico tem viabilidade no nosso país.

 

Os malefícios da Economia Extrativa nas cidades

Durante o atual processo de transformação digital do mundo, muitos são os exemplos de plataformas que possibilitam indivíduos transacionarem diretamente por via eletrónica. Contudo, em vez de estarmos a cortar nos intermediários, estamos apenas a trocá-los por intermediários digitais.


À semelhança do paradigma económico Industrial, este fenómeno originou grandes multinacionais. O investimento destes gigantes nas cidades e países é irrisório.


Na verdade, o modelo de negócio destes monopólios é extrativo, pois não produzem nem contribuem, limitando-se apenas a retirar uma margem aos recursos existentes.


Se observarmos este fenómeno numa perspetiva de cidade, concluímos que esta reúne tudo: os recursos, os bens e mesmo os clientes. Extraindo estes recursos nascem gigantes, como a airbnb, que é a maior empresa imobiliária do mundo e não tem um único edifício.


Mas esta economia está a prejudicar as cidades. Lisboa é exemplo disso. A airbnb usa o slogan: “Vive como um local”, mas esta organização contribui para a especulação imobiliária levando os locais a já não conseguirem suportar os custos de vida local!

 

Plataformas cooperativas e as smart cities


Os exemplos de Londres e Nova Iorque demonstram bem que estes são empreendimentos de origem comunitária.


Desta forma, o desenvolvimento económico das cidades, bem como a sua sustentabilidade, depende fortemente da sua capacidade de fomentar as suas comunidades.


As cidades são o próximo terreno competitivo e as comunidades (com as suas plataformas cooperativas) são as próximas corporações.


Este paradigma representa uma fórmula de desenvolvimento económico alternativo aos modelos tradicionais de financiamento (banca e capital de risco). Contudo, muitos economistas afirmam ser essa a razão pela qual as plataformas cooperativas não irão singrar. A falta de volumosos financiamentos, de um espírito empreendedor agressivo e da limitação comunitária e geográfica são prenúncios de uma morte antecipada.


A contraposição a este ceticismo surge por Rob Monster, um empreendedor bem-sucedido, que posteriormente se tornou investidor e que atualmente dirige a remodelação da DigitalTown, uma cotada de Seattle. A visão em curso é transformá-la na Plataforma Cooperativa das Plataformas Cooperativas.


A DigitalTown percebeu que cada plataforma representa o ADN de uma cidade. Assim, adquiriu cerca de 23 mil domínios de internet com extensão .city, cujo nome são cidades (como oeiras.city).


Em vez de promover a marca, a DigitalTown prefere promover as cidades. O sucesso desta corporação depende do sucesso de cada cidade e da sua plataforma cooperativa que é uma montra digital de toda a economia local.


No entanto, a estrutura acionista de cada plataforma não se limita a uma PPP (Parceria Público-Privada).  Monster vai mais longe, abrindo a plataforma à população: “muitos falam de adicionar o P de Pessoas às parcerias erigidas nas cidades, nós estamos a executar isso! Somos um projeto verdadeiramente PPPP (Parceria Público Privada mais as Pessoas!)”, reclama, “estamos a usar o BlockChain para que as participações sejam geridas de forma transparente. Somos um novo paradigma para smart cities: muito além do IoT (Internet of Things), uma aposta no IoP (Internet of People)!”.


Trabalhadores na primeira geração da Economia da Partilha, empreendedores visionários e corporações cotadas na bolsa já se aperceberam do novo paradigma económico a instalar-se nas cidades.

Aos recém-eleitos presidente de câmara, fica um conselho: informem-se e observem este fenómeno. Apostar nas pessoas e economia local é sempre uma ação inteligente. Mas, atualmente, o progresso depende da adoção do paradigma: cidade-plataforma de cooperação!

*Jorge Saraiva é vice-presidente para a Europa da multinacional norte americana Digital Town cotada na bolsa (DGTW), cuja plataforma para smart cities está a ser implementada em mais de 23 mil cidades em todo o mundo. Além da sua colaboração com a DigitalTown, é também co-chair em Citizen Focus nas smart cities da Comunidade Europeia e co-chair da iniciativa da Comunidade Europeia: Citizen City. Iniciou a sua atividade profissional em smart cities em 2012 e, durante estes cinco anos, esteve envolvido em dezenas de projetos e muitos eventos/debates sobre quais as melhores práticas. “Felizmente, a minha atividade possibilitou-me conhecer grandes intervenientes na matéria e acesso a alguns meios essenciais para uma análise fidedigna”, exclama.

 


#CIDADÃO é uma rubrica de opinião semanal que convida ao debate sobre territórios e comunidades inteligentes, dando a palavra a jovens de vários pontos do país que todos os dias participam activamente para melhorar a vida nas suas cidades. As opiniões expressas são da responsabilidade dos autores e não reflectem necessariamente as ideias da revista Smart Cities.

VOLTAR

NOTÍCIAS RELACIONADAS

2017-11-07
Comunidade ou cidade – qual o caminho a seguir?
Convido-vos a refletir sobre o conceito de interdependência. Através da sua origem etimológica – inter +...
2017-10-17
Habitação, habitação, habitação
Nas recentes eleições autárquicas, a habitação tornou-se num tema dominante na agenda política e – nas maiores...
2017-10-10
Episódio 3 - Incerteza fundamental (Black Swans)
Consideremos dois cenários: o primeiro passa-se num casino. Pode ser o casino do Estoril, em frente a uma mesa de...
2017-09-26
Promover uma Mobilidade Sustentável
De uma forma sintetizada, a Mobilidade Sustentável é a capacidade das pessoas se moverem de um ponto para o outro da...
VER TODAS